Filhas da mãe
Mares e ilhas. Mães e filhas.
1.
Ainda era pandemia e eu estava na casa dos meus pais no interior. Eu descansava em uma rede quando chegou a mensagem de voz da minha amiga, a poeta Marina Rima dizendo que ia escrever um artigo sobre o mar. Na troca de áudios, Marina me disse algo que nunca esqueci: a palavra mar, em francês, tem a mesma sonoridade de mãe. Mer e mère. Essa coincidência fonética, segundo ela, produzia uma comunicação de símbolos e significados entre as duas palavras. As características marítimas como imensidão, transbordamento, beleza, fúria, tranquilidade, perigo, terror, mistério, transparência, opacidade, profundidade, frieza, calor, conforto, vida, morte, entre outras, cabiam também à figura da mãe.
2.
Mar e mãe têm dimensões oceânicas.
3.
Recentemente, a tradutora, pesquisadora e poeta Eduarda Rocha postou em seu perfil do Instagram, a tradução que fez do poema da poeta uruguaia Paula Simonetti. Curiosamente, o poema trazia a relação mar-mãe.
Em Montevidéu
Paula Simonetti (trad. Eduarda Rocha)
nós temos um rio que dizemos é um mar é bom saber que temos o mar porque o mar é uma sensação e aquilo que acontece diante do mar adquire sua transparência porque o mar é a melhor testemunha testemunha do tempo de nosso tempo porque o mar é como uma mãe que não nos espera mas nos recebe uma mãe em que podemos entrar várias vezes embora não possamos permanecer nela porque o mar é um lugar ambíguo tão ambíguo como uma mãe.
4.
Em Uma mulher, Annie Ernaux disse sobre sua mãe: “Eu conhecia todas as partes do corpo dela. Eu achava que, ao crescer, seria ela.” Isso me fez voltar aos dez anos de idade, quando comecei a sentir vergonha de ser vista com a minha mãe. E não havia nada de errado com ela.
Aos 40, ela era uma mulher bonita e independente, que trabalhava muito. Ainda que fosse bastante exigente com os filhos, na frente dos outros ela era agradável. Mas havia um incômodo. Minha mãe era muito diferente das outras que eu conhecia.
Essa vergonha permaneceu por muitos anos e, em algum momento, cheguei a identificar isso como uma forma de proteger minha mãe do olhar e do pensamento dos outros. Só bem mais tarde percebi que não era ela quem eu queria proteger. Era eu. Foram anos para entender que nós duas não éramos uma só. E que o meu corpo era meu, assim como o dela pertencia a ela.
Por isso, me pergunto: quando começa o corpo da filha e termina o da mãe?
5.
Nas últimas páginas de Afetos ferozes (trad. Heloisa Jahn) , livro que narra a relação da autora com sua mãe desde a infância, Vivian Gornick relata acreditar que começa e termina em si mesma. Ela não afirma, mas acredita. Acreditar é um verbo que sugere instabilidade e constante manutenção.
Por que é tão difícil afirmar essa separação de corpos?
6.
Christina Sharpe conta, em Algumas notas do dia (trad. Jess Oliveira), que sua mãe a presenteou com amor pela beleza e pelas palavras. A mãe lhe dava todos os livros de autoria negra que encontrava. Em um deles, The Salt Eaters [Comedoras de sal], de Toni Cade Bambara, a autora agradece à mãe "que em 1948 tendo me encontrado sonhando acordada no meio do chão da cozinha, passou o pano em volta de mim." Nessa bela imagem, Christina reconhece o gesto de sua própria mãe, aquela que a deu espaço para sonhar.
7.
A diretora de teatro e cinema argentina Lola Árias queria fazer uma peça em que investigaria a depressão da mãe. A autora chegou a convidar a própria mãe para encenar a peça, mas a proposta foi recusada e outra atriz interpretou a mulher. No dia da estreia, alguém perguntou à mãe se ela havia se sentido “bem representada”. Ela respondeu: “Essa que está na peça não sou eu. Essa é a mãe da minha filha”.
8.
Em Heart of a dog (2015), filme-ensaio de Laurie Anderson, a autora narra que no leito de morte de sua mãe, perguntou ao seu professor de budismo o que dizer àquela mulher prestes a falecer. Diga que a ama, sugeriu o professor. Laurie respondeu com todas as letras: mas eu não amo minha mãe.
A pesquisadora catalã Marta Andreu, no podcast sobre cinema, Teléfono rojo, ao falar sobre Chantal Akerman, diz que a diretora, em busca da verdade, substitui essa pela sinceridade. E é isso que vejo em tantos relatos de mães sobre suas filhas, um desejo de confissão. Laurie Anderson confessa o desamor por sua mãe, mas diz, em outra ocasião, que encontrou na morte dela uma forma de libertar o amor.
9.
Naomi Kawase foi adotada e criada pela tia avó. Seus pais biológicos se separaram antes de Naomi nascer. O pai não quis saber da filha e a mãe não teve condições psíquicas de criar a menina. Os primeiros filmes documentais da diretora mostram essas relações: a filha com a mãe adotiva, a filha em busca do pai biológico, a filha confrontando a mãe biológica. Em todos esses e em outros filmes, sua mãe adotiva, a quem chama de vó (obaasan) está presente. Em uma palestra, a realizadora disse que começou a filmar seus familiares porque essa era uma forma de voltar no tempo, e também de nunca perdê-los.
Na imagem abaixo, Naomi, com uma mão, segura a câmera para filmar a avó-mãe e com a outra, ela toca lhe toca o rosto.
10.
Já faz um tempo que os relatos de filhas sobre suas mães têm sido uma obsessão. Livros como: Algumas notas do dia a dia de Christina Sharpe (trad.Jess Oliveira), O coração do dano, de María Negroni (trad. Paloma Vidal), trechos da Dalva Soares, Luiza Leite, Marília Garcia, Maya Angelou, Cristina Peri Rossi, Alison Bechdel, Hang Kang e muitas outras, além dos filmes Coração de cachorro da Laurie Anderson, Não é um filme caseiro da Chantal Akerman, Caracol de Naomi Kawase não saem mais do meu farol, para não me distanciar do universo marinho.
Ao me aproximar desses relatos, poemas e filmes sobre mães, vou, aos poucos, conhecendo o outro lado, as filhas - palavra que contém ilhas - esses pequenos pedaços de terras cercados por águas volumosas. Mães e filhas. Mares e ilhas.
11.
Quando Han Kang, no Livro branco, diz que todas as memórias que passou na vida estão isoladas e seladas junto à sua língua materna, de forma inseparável”, pensei na língua materna como tudo que nos rodeia, margeia, a linguagem que aprendemos com nossas mães, que nos confunde com elas, que cria nossas expectativas do que ser e de como ser. Penso no mar (mãe) como a linguagem e na ilha (filha) como a escrita. As interrupções territoriais na imensidão marítima. As marcas no oceano da linguagem.
12.
Há exatamente 10 anos, assisti ao documentário Eu sou Ingrid Bergman (Stig Björkman, 2015) e me lembro de ter adorado. Ainda não estava apaixonada pelo tema "filhas que falam de suas mães", mas fui tocada pelas vezes que Pia, Isabella e Isotta contaram sobre Ingrid. Também me chamou a atenção como a atriz conduziu sua vida e carreira, colocando sempre o desejo de atuar em primeiro lugar e lidando depois com as consequências. Reassisti ao filme e, dessa vez, além da mãe e das filhas, vi também o mar e as ilhas. Os mares que Ingrid atravessou e as ilhas em que ela fincou o pé, mesmo que por pouco tempo. Há dez anos, pensei que era um filme sobre o oceano Ingrid Bergman. Mas hoje vi que é também sobre suas (f)ilhas.
13.
Para terminar, trago Maria Negroni: “A figura materna é quem organiza o texto. É da mãe que vem a origem. A origem da vida e da palavra.”
Há quem diga que a vida se originou no mar.
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Em abril deste ano, ministrei a oficina Filhas da mãe no Estratégias Narrativas. Foi um espaço de escrita, leitura e trocas muito ricas. Em setembro, a oficina retorna em formato on-line, trazendo algumas novidades, mas preservando o mesmo objetivo: provocar a escrita sobre a relação mãe e filha.
4, 11, 18 e 25 de setembro - quintas-feiras, 19h às 21h
R$310,00
As inscrições estão abertas e podem ser feitas aqui, pelo e-mail estrategiasnarrativas@gmail.com ou pelo WhatsApp 31 9941-6546.








Um mar de mães, meu deus, que lindo! E esta fala da mãe da Lola Arias é desde que li meu mantra pra explicar tudo o que escrevo. 💗
Que preciosidade de texto, Carina! Sinto que embora a correspondência do francês não seja a mesma no napolitano, Elena Ferrante com certeza colocou ela na escrita. Em "Um amor incômodo" essa imagem de mãe-mar é muito forte.